A velha canção dos meus tempos de rapaz, que o Orlando Silva, o maior cantor do Brasil em todos os tempos, gostava de soltar a voz trepado no alto da mangueira do quintal da casa suburbana de seus pais, ainda de calças curtas, a popularíssima Manuelita que ensinava que “os números não mentem jamais…” Nem mesmo o preto no branco das pesquisas que começa a rabiscar o cenário da campanha eleitoral que, privilegiada com a pista livre para a candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, apressa o candidato da Oposição , o governador de São Paulo, José Serra, que procura na praça o companheiro de chapa e assiste a candidata adversária disparar na gangorra da indecisão.
Vamos aos números da pesquisa do Datafolha. No confronto de José Serra com Dilma, de 14 a 18 de dezembro de 2009, os 37% da dianteira do candidato da oposição despencaram para 32% na última pesquisa de 24 a 25 de fevereiro de 2010. Na mesma faixa, Ciro Gomes provável candidato do PSB, de 13% escorregou para 12%, dentro da margem de erro. E a ex-ministra Marina Silva, candidata do Partido Verde, manteve-se em 8%.
Por enquanto, a banca dos boatos registra a óbvia euforia dos petistas, que pularam na garupa da candidatura da ministra, engolindo em seco a escolha pessoal do presidente Lula, que não ouviu ninguém. Mais autêntico é o soar de alerta nas fileiras atordoadas da oposição. Se a candidata de Lula disparar nas pesquisas, a única alternativa do governador José Serra será disputar a reeleição com folgado favoritismo. E a oposição terá que voltar a Minas para retomar a conversa com o governador Aécio Neves para o reexame das duas cancelas de saída: a candidatura à vice-presidente que o governador nunca admitiu ou a mais ousada candidatura a presidente. As saídas pela porta dos fundos.
Serra e Aécio devem se reunir esta semana em Belo Horizonte. È improvável que renda mais do que declarações escapistas e espaço na imprensa. E a oposição centra as críticas na candidata e evita o confronto direto com o presidente Lula que é grande eleitor, com a aprovação nas pesquisas acima de 80%. Esta primeira arrumação da casa deve-se à iniciativa de Lula, que partiu para a campanha fora dos prazos legais, para o teste da viabilidade da sua candidata. E jogou de peito aberto, indiferente ao esperneio da oposição e da penca de recursos ao Supremo Tribunal Federal.
Nada mais detêm a campanha, pois não se cerca fogo de morro abaixo. Acuados, os líderes de uma oposição frouxa e desinteressada só têm a alternativa de criticar o governo, nas suas contradições, na orgia da gastança, nos reajustes de salários de categorias privilegiadas de funcionários, nas nomeações nitidamente políticas, na roubalheira de Brasília e na coleção de tiradas pornográficas dos improvisos presidenciais. E as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), da recuperação da rede rodoviária em petição de miséria andam no mesmo passo da reconstrução das imensas áreas por quase todo o país, devastadas pelas enchentes de uma das piores fases dos últimos anos.
Villas Bôas Corrêa
